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Entrevista com Mauricio de Sousa

Filipe Oliveira
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Criador da Turma da Mônica fala sobre tecnologia, gestão de negócios e revela os próximos passos de sua obra, como uma série para o streaming

“O que criei se tornou uma coisa viva, dinâmica, que acompanha os tempos, hábitos e alterações sociais”. A afirmação é de Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica. O cartunista bateu um papo exclusivo com o Trendings, na noite da última quinta-feira (23), pouco antes de subir ao palco do UnimedHall, em São Paulo, como patrono de graduação de uma turma da ESPM.

Aos 84 anos, Mauricio contou com orgulho que vai “praticamente todo dia” ao seu escritório – a Mauricio de Sousa Produções. “Fico incomodado quando encontro alguém no estúdio que eu não sei o nome. Me esforço para conhecer todo mundo”.

O empresário também disse tentar “saber tudo o que está acontecendo” na empresa e revelou alguns planos para o futuro de sua marca, como novos filmes, séries para serviços de streaming e até mesmo uma Turma da Mônica adulta.

São 60 anos de Turma da Mônica, caminhando para 61. Qual o segredo para manter essa obra relevante por tanto tempo?

Acho que o principal é trabalhar todo dia com o mesmo projeto, que apesar de se repetir ano após ano, não é igual. Na atividade da criatividade, não tem um dia igual ao outro. Ao mesmo tempo, temos a responsabilidade de continuar controlando o timão – não estou falando do Corinthians [risos].

Desenvolvemos um sistema de trabalho que faz com que a pessoa que entra para trabalhar na Mauricio de Sousa Produções se sinta muito bem e fique por lá. Tenho funcionários com 30, 40 e até 50 anos de casa. Ainda bem, porque demora algum tempo para aprender a desenhar corretamente, os truques, a arte, o estilo e principalmente a filosofia, no caso de roteiros.

Paternidade  

Os personagens – que é o mais visível da empresa – tem pai e mãe. Eu criei e venho apascentando [vigiando atentamente] nesses anos todos, como se fosse um pai. Ao mesmo tempo, o pessoal que trabalha assimila o estilo, o traço, o modo de produzir e mantém tudo isso.

Perenidade

Nosso trabalho continua com os mesmos cuidados, mas se transformando de acordo com as necessidades, a tecnologia, alterações de hábitos, costumes e o desenvolvimento social. O que criei se tornou uma coisa viva, dinâmica, que acompanha os tempos, os hábitos e alterações sociais. Com isso, estamos vindo até agora e com vontade de continuar do mesmo jeito.

Internacionalização

Estamos internacionalizando todo nosso material. Fiz uma descoberta fabulosa: toda criança do mundo é igual, gosta das mesmas coisas. Se a Turma da Mônica chega bem traduzida para qualquer criança chinesa, japonesa, alemã, africana ou de qualquer outro lugar, a criança gosta. Os personagens têm uma linguagem universal nas mensagens e no comportamento.

Hoje, temos, por exemplo, a série Mônica Toy, que não tem idioma e é como nossa tirinha de jornal de antigamente. Terminamos o desenho e mandamos para o mundo inteiro instantaneamente. Já são 12 ou 14 bilhões de views no YouTube.

Como é o seu dia a dia na Mauricio de Sousa Produções?

Vou praticamente todo dia ao estúdio e acompanho. Logicamente, a empresa cresceu não dá para ver tudo. Mas tenho gerentes e diretores me servindo como janelas. Fico incomodado quando encontro alguém no estúdio que eu não sei o nome. Me esforço para conhecer todo mundo. Na medida do possível, tento saber tudo o que está acontecendo.

Multiplataforma

Agora não estamos fazendo só história em quadrinhos. Estamos fazendo desenho animado para o mundo todo e filmes – o filme da Turma da Mônica foi um sucesso e já estamos rodando a continuação. Depois, lógico que virão filmes de outros personagens. Estamos planejando também para este ano começar a produzir séries de filmes para serviços de streaming.

Futuro

Como somos um estúdio criativo, eu não sei dizer o que vem depois. Só sei dizer que estamos aproveitando cada momento de comunicação, marketing e jornalismo para continuar espalhando historinhas legais para família, crianças e também publicações para o público jovem e adulto. Provavelmente no futuro, vamos ter a Turma da Mônica adulta, para poder falar de assuntos um pouco mais desenvolvidos.

Que dica você daria para a garotada que está entrando agora no mercado de trabalho?

Penso que o sucesso vem da pessoa fazer o que gosta, aquilo que quer fazer. Vários especialistas falam que a ideia é que a pessoa aponte o próprio destino e vá em frente, tenha foco. Para chegar aonde você quer, estude o que está no meio do caminho, aquilo que vai te ajudar. Tem que se preparar, estudar, quebrar a cuca e obviamente passar por uma escola como essa daqui [ESPM]. De certa maneira, tudo o que fiz até hoje passou pelo caminho da comunicação, do marketing, do jornalismo, das coisas que estão sendo apresentadas nas aulas. Daqui provavelmente sairão diversos profissionais que vão fazer as coisas que eu faço.

Com todas as tecnologias, mídias e formas de produzir conteúdo que você mencionou, você considera que hoje é mais complexo criar algo como a Turma da Mônica? Ainda é possível construir um império como a Mauricio de Sousa Produções?

Lógico. O mundo é grande, tem muitas possibilidades e acho que a tecnologia só ajuda. Tem que ter foco, se preparar e saber que não é fácil: precisa trabalhar, estudar e aproveitar as oportunidades. E claro que tem que saber manejar a tecnologia.  Quando passo no estúdio e vejo o pessoal nos computadores colorindo e fazendo a arte final penso: ‘No meu tempo era tão difícil. Precisava pegar um lápis, depois a pena, a tinta, fazer medições’. Agora, você aperta botões – claro que precisa conhecer o processo – e as coisas brotam rapidamente.

Dinossauros

No meu estúdio tem uma ala onde ficam os funcionários mais antigos. Alguns deles com 50 anos de casa não sabem usar um computador. Mas realizam o trabalho do mesmo jeito. Onde está a diferença? Na velocidade para terminar o trabalho. É mais lento, mas com a mesma qualidade e de uma maneira até mais heroica. Chamamos aquela área – com muito respeito – de ala dos dinossauros. E eles gostam. Logicamente é uma ala que tende a diminuir cada vez mais, porque preferimos que o pessoal que está chegando já domine a técnica e o trabalho com o computador. A tecnologia possibilita produzir mais rápido, mas também nos desafia na criatividade: a usar essa beleza tecnológica para desenvolver cores, histórias, animações e etc.

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Filipe Oliveira

Editor do #Trendings.

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