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Pandemia no mercado de eventos: “Foi o primeiro a parar e deve ser o último a voltar”

Filipe Oliveira
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Marcelo Flores, professor de gestão de eventos da ESPM, comenta os desafios e oportunidades da indústria de eventos durante a pandemia de Covid-19

A indústria de eventos é um dos setores mais prejudicados pela pandemia de Covid-19. Com as medidas de isolamento social – recomendadas pela OMS para conter o avanço da doença – shows, feiras, festivais e eventos esportivos tiveram que ser adiados ou cancelados. Incluindo até mesmo os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, reagendados para o próximo ano, mas que podem nem ocorrer caso a pandemia não esteja controlada até lá.

Para entender os desafios dessa indústria no Brasil, conversamos com Marcelo Flores, professor de gestão de eventos da ESPM e fundador da BusinessLand Entertainment. “O mercado de eventos e entretenimento foi o primeiro a parar e deve ser o último a voltar. Isso significa que cerca de 50% dos eventos em 2020 poderão ser cancelados. Em números, isso representa cerca de 300 mil eventos no país a menos e impactará um ecossistema de 25 milhões de pessoas”, comentou o especialista, que tem no currículo projetos como Réveillon na Paulista e o Carnaval de Rua de São Paulo.

Flores também falou sobre possíveis caminhos de retomada para o setor, o fenômeno das lives musicais e, apesar da crise, demonstrou otimismo quanto ao futuro de sua área. “Estamos passando por uma era de aceleração digital nunca antes vista, e os impactos são positivos em nossa indústria de eventos e entretenimento quando vistos como oportunidade”.

Quais têm sido os principais impactos da pandemia na área de eventos?

O mercado de eventos e entretenimento foi o primeiro a parar e deve ser o último a voltar. Isso significa que cerca de 50% dos eventos em 2020 poderão ser cancelados. Em números, isso representa cerca de 300 mil eventos no país a menos e impactará um ecossistema de 25 milhões de pessoas. Sendo este um mercado que em 2019 representou 12,93% do PIB nacional, tudo indica que terá uma retração muito relevante e precisará de incentivos adicionais para continuar gerando negócios.

Em sua opinião, quais setores tem reagido melhor neste momento de pandemia na criação de eventos online?

Tivemos uma mudança comportamental muito importante na quarentena. As pessoas passaram a ficar em casa, trabalhar em home office, estudar em homescholling e comprar tudo pela internet. Em muitos mercados isso trouxe um crescimento de produtos e serviços acessados digitalmente. Não apenas por quem já tinha frequência no uso de aplicativos ou sites, mas também por pessoas que não costumavam usar essas tecnologias no seu dia a dia. Esta aceleração digital não vai ter volta, e muitos novos negócios vão nascer e perpetuar neste movimento. Ao mesmo tempo, estamos entendendo que precisamos viver com o essencial, logo estamos adquirindo e se importando com o que é relevante para nossas vidas hoje. Com isso, o varejo digital cresceu muito, e no caso de eventos e entretenimento, tudo oferecido por streaming passou a ter proporções inimagináveis.

“As lives musicais já são tendência há muitos anos”

Como você tem visto esse movimento de lives musicais? Acha que isso é uma tendência ou apenas algo momentâneo? É possível que os artistas passem a cobrar ingressos por shows online?

As lives musicais já são tendência há muitos anos. Quando fiz o Skol Sensation em 2011, transmiti com várias câmeras. Só que tínhamos audiências que eram complementares. Atingíamos 100 mil a 500 mil pessoas, dependendo do conteúdo. Foi o caso de shows como da Beyonce no Festival Coachella. Mas agora estamos com lives que passaram de 3 milhões de pessoas ao vivo no Brasil e isso chamou muito a atenção de marcas e pessoas. Acredito que este modelo tem tudo para continuar por um bom tempo, até que tenhamos a possibilidade de voltar aos grandes shows ao vivo. Quando isso acontecer, estaremos com a possibilidade de ter os dois produtos: ao vivo e o streaming. Ambos monetizados e colaborativos para aumentar as receitas dos artistas, promotores e patrocinadores. Com isso, todo mundo ganha, inclusive o público que terá opção de assistir em casa ou ir viver a experiência ao vivo.

Fashion Week, SXSW e Olimpíadas foram alguns eventos cancelados ou adiados este ano. No caso dos Jogos Olímpicos, houve uma grande resistência dos organizadores antes disso ocorrer. Por que é tão difícil remanejar grandes eventos como esse?

Grandes eventos tem um planejamento que leva geralmente um ano ou mais. Isso envolve muitas decisões, reservas e investimentos de pré-produção que impactam em muito para qualquer mudança de “última hora”. Geralmente quando você faz seu projeto de risco (risk managment), considera variáveis que mitiguem um possível cancelamento, já que isso geralmente não é uma opção a ser considerada no planejamento inicial. É nestes casos que o plano de contingência é muito importante, assim como os seguros de NO SHOW. No caso do Covid-19, não restaram opções por ter impactos mundiais na vida das pessoas. Além disso, a baixa de muitos eventos força a decisão em cancelar ou adiar. Para grandes eventos a mudança de data gera um enorme retrabalho, impactos de cronograma e recursos financeiros que não voltam mais.

“O digital deve se fortalecer, mas teremos grandes impactos, como quebras de muitas empresas do ecossistema de eventos”

Alguns especialistas acreditam que só deveremos voltar a ter eventos com grandes aglomerações quando tivermos uma vacina. Se isso se confirmar, quais serão os impactos na área de eventos?

São variáveis importantes para colocar em um plano de contingência. As vacinas têm prazos de 1 ano em média para serem aprovadas, salvo algo novo acontecer o que não seria uma surpresa, já que temos tantos especialistas trabalhando nisso no mundo e a tecnologia a nosso favor. Porém, caso este seja o cenário possível, o digital deve se fortalecer, mas teremos grandes impactos, como quebras de muitas empresas do ecossistema de eventos. Uma solução poderia ser criada baseada em protocolos de segurança. Por exemplo, liberar eventos com um número reduzido de pessoas com o uso obrigatório de máscara, banheiros com pias e distribuição de álcool gel para todos.

É possível adaptar qualquer tipo de evento para a internet?

Sim, é possível. Porém a experiência para internet precisa ser construída com projetos que façam sentido, tenha propósito em suas campanhas e objetivos muito bem definidos. Tudo que for realizado precisa chegar no limite da entrega virtual com impacto e atratividade. Se for um evento gastronômico, por exemplo, é importante que haja delivery dos ingredientes ou da comida para a casa das pessoas. Enquanto o Chef apresenta a receita, o show acontece. Não é uma tarefa simples e exige a compreensão de estratégias e ferramentas de interação próprias para isso.

“Se fizermos um bom trabalho, a crise pode ter valido a pena”

Há algo mais que você considere importante comentar?

Estamos num momento em que tudo é novo, e o conhecimento e preparação para o que vem por aí é fundamental para seguirmos adiante. Estamos passando por uma era de aceleração digital nunca antes vista, e os impactos são positivos em nossa indústria de eventos e entretenimento quando vistos como oportunidade. A parada de tudo é negativa para a saúde e economia, mas está nos dando tempo de replanejar a volta. Sugiro que as pessoas usem seu tempo para mergulhar em conteúdos e ensinamentos para sair desta fortalecido. Todos vamos precisar disso para voltarmos ao “novo normal”, afinal se fizermos um bom trabalho, a crise pode ter valido a pena.

Marcelo Flores, professor de gestão de eventos da ESPM
Marcelo Flores, professor de gestão de eventos da ESPM
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Editor do #Trendings.

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