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Moda sustentável: pesquisa mostra o que jovens esperam das marcas

Diego Santos Vieira de Jesus
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A sustentabilidade entrou definitivamente na pauta em praticamente todas as áreas de atividade humanas e no seu cotidiano. E os jovens a tornaram realidade até mesmo no universo da moda – a ponto de se transformar tema de pesquisa de mestrado

A aquisição de produtos e serviços sustentáveis visa à diminuição dos impactos negativos das atividades econômicas ao meio ambiente. São atitudes positivas que preservam os recursos naturais, mantendo o equilíbrio ecológico, algo cada vez mais exigido pelos consumidores – inclusive, na indústria da moda. Mas quais práticas sustentáveis são valorizadas pelos jovens consumidores e empreendedores nesse setor?

É o que Leonardo Zeitune investigou na dissertação “Uma análise do comportamento de consumo dos jovens cariocas diante da adoção de práticas sustentáveis no setor da moda” – com orientação da professora Veranise Dubeux, do Programa de Mestrado Profissional em Gestão da Economia Criativa (MPGEC) da ESPM-Rio.

Entre as conclusões do estudo, destaca-se a de que os jovens estão mudando certos hábitos em prol da sustentabilidade ao consumir e empreender. Mas nem tudo são flores, segundo a pesquisa: o futuro da moda sustentável no país ainda é um desafio que depende não só deles, mas também das grandes marcas da moda.

Pode até ser “modinha” (e não há nada de mal nisso)

Parte dos jovens, conforme os empreendedores entrevistados por Zeitune, consome moda sustentável por acreditar que a sustentabilidade é um elemento importante na preservação do planeta. Mas há também aqueles que só embarcam nessa onda por “modinha” – e isso não é necessariamente negativo.

Para os profissionais da moda que participaram da pesquisa, mesmo que o jovem acolha práticas sustentáveis por necessidade de fazer parte de um grupo ou chamar a atenção, ele possivelmente adotará isso e mudará seu comportamento de consumo. Ou seja, isso funciona como um estímulo para o jovem a consumir de forma sustentável.

Sustentabilidade não é só ambiental

Grande parte dos jovens consumidores entrevistados não se limitou a discutir sustentabilidade apenas no âmbito da moda, nem entendeu que ser sustentável se restringe às questões ambientais. Para eles, um indivíduo pode ser sustentável na alimentação, ao consumir produtos orgânicos (livre de agrotóxicos); na moda/vestuário, ao optar por comprar roupas de lojas que não utilizem trabalho escravo e reaproveitem os tecidos; no descarte do lixo, ao realizar a separação do lixo e sua coleta seletiva; na produção, ao utilizar fontes alternativas e ecológicas; e em outras facetas do consumo.

Jovens inspirando jovens

A pesquisa constatou que o jovem tem um papel fundamental na difusão de comportamentos. Ele tem a capacidade de inspirar outros jovens e também é influenciado pelas redes sociais. Dentre os comportamentos que ele pode disseminar, cabe destacar novos hábitos que minimizam danos ao meio ambiente, como a redução do desperdício, o reaproveitamento de peças e a decisão de não comprar produtos de empresas que não seguem normas ambientais e trabalhistas.

Oportunidade para marcas brasileiras

O poder de comunicação das grandes marcas de moda também influencia muito os jovens. Por outro lado, atrair esse público é o maior desafio para pequenas e médias empresas, cujo core business é a sustentabilidade.

Zeitune constata a tendência favorável à produção local: a de que os jovens priorizem marcas brasileiras na compra. Diante disso, elas devem dar visibilidade aos responsáveis pela criação e montagem de uma peça de roupa que reaproveitem seus materiais e tenham um posicionamento claro e focado na sustentabilidade.

Um nó ainda não desatado, segundo a pesquisa é que ser sustentável ainda é visto pela maioria como símbolo de status. Para mudar essa visão, as grandes empresas podem utilizar a sustentabilidade como símbolo de esperança para um futuro melhor. O luxo não está no preço dos produtos, mas na responsabilidade em prol de um planeta preservado.

Empreendedores da moda e processos sustentáveis

Os jovens empreendedores utilizam meios alternativos para produzir suas roupas e veem uma oportunidade na moda sustentável de atrair outras faixas etárias a conhecerem seus negócios e consumirem de forma mais justa e limpa. Segundo eles, pessoas de mais idade interessam-se pelo propósito e, ao final, acabam se tornando clientes.

Para Zeitune, a tendência das pequenas e médias empresas atuantes no setor da moda é a adoção de práticas sustentáveis em todas as fases do seu processo produtivo, visando à minimização do impacto ao meio ambiente, sem perder a qualidade de seus produtos.

Atualmente, há diversas ferramentas tecnológicas que auxiliam a reciclagem dos tecidos e seu reaproveitamento. A utilização desses instrumentos oferece uma possibilidade otimista para o futuro desse setor e evidencia o desgaste de uma indústria poluente, que, em breve, será forçada a resolver diversos problemas criados pela produção em massa.

Com o surgimento de novas tecnologias de produção sustentável, é importante que os designers e estilistas as utilizem para criar produtos artesanais ou industrializados com um propósito que seja bom para o ambiente, mas também esteticamente agradável e acessível. Só então a indústria da moda poderá caminhar em direção a um futuro mais sustentável e inteligente.

Como foi feita a pesquisa

O ponto de partida foi a realização de pesquisa exploratória bibliográfica sobre o tema. Em seguida, foram resgatados resultados de uma pesquisa quantitativa elaborada pelo autor, em 2017, que relacionava a renda familiar do jovem universitário e o seu consumo consciente – que embasou uma consulta posterior: a pesquisa descritiva qualitativa, dividida em duas etapas:

– na primeira, foram realizadas entrevistas com cinco jovens empreendedores do setor da moda sustentável, a partir de um roteiro composto por 19 perguntas sobre práticas sustentáveis dentro das organizações, o comportamento de consumo consciente do jovem e o futuro do mercado varejista sustentável no Brasil.

– para a segunda etapa, um grupo focal foi realizado com sete jovens cariocas entre 18 e 29 anos, em duas sessões, a fim de se obterem informações mais detalhadas e aprofundadas acerca de suas percepções, crenças, atitudes e comportamentos de consumo, considerando o setor da moda sustentável.

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Diego Santos Vieira de Jesus

É docente e pesquisador do Programa de Mestrado Profissional em Gestão da Economia Criativa (MPGEC) e coordenador do Laboratório de Cidades Criativas da ESPM-Rio.

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