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Nota de R$ 200: “Estamos na contramão do mundo”

Jorge Tarquini
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A afirmação é da economista Paula Sauer, professora de Economia Comportamental e Psicologia Social da ESPM-SP – que ainda analisa os impactos do lançamento da nota na sociedade brasileira

Eis que “de repente, não mais que de repente”, como no Soneto da Separação, de Vinícius de Moraes, o Brasil é surpreendido pelo anúncio do lançamento de uma nova nota de Real: R$ 200. Desde 2002 não havia notas com novos valores no país – a última havia sido a de R$ 20, no ano de 2002. Para entendermos melhor o que isso pode significar, entrevistamos a economista e professora de Economia Comportamental e Psicologia Social da ESPM-SP Paula Sauer.

Mestre em Finanças Comportamentais pela PUC-SP e Doutoranda em Comportamento do Consumidor pelo PPGA ESPM-SP, ela nos ajudou a entender as razões pelas quais parece estarmos indo na direção contrária do restante do mundo, de suprimir notas de valores elevados (para evitar corrupção ou dificultar operações do tráfico, por exemplo).

O anúncio do lançamento da nota de R$ 200 faz sentido no atual cenário (como, por exemplo, diminuir o custo de emissão de papel moeda) ou pode sinalizar que há no horizonte a perspectiva de nova desvalorização ou inflação para o Real?

Estamos vivendo um cenário tão inusitado, com tantas incertezas na economia, não só no Brasil, mas ao redor do planeta, que fazer qualquer previsão hoje pode ser equivocada. O cenário, que já está extremamente volátil em função da pandemia e notícias internacionais, tende ficar ainda mais sensível com a aproximação das eleições no país. Boatos e promessas sacodem a economia. A inflação certamente virá um dia, não sabemos quando e em que patamares. Quando a economia voltar a aquecer, o desemprego diminuir e as pessoas voltarem a consumir produtos para além dos essenciais, a inflação de demanda ocorrerá. Isso é normal, pois a economia é cíclica. Um pouco dessa inflação, a essa altura do campeonato, é até desejada e será um bom sinal.

Só para a gente entender: qual a diferença entre os cenários de inflação?
A inflação de demanda já faz tempo que não observamos por aqui. Porém, já vínhamos convivendo com um cenário de “estag-inflação”, que é o aumento generalizado de preços em uma economia estagnada, o que é ruim. Espero, de coração, não viver novamente o cenário de hiperinflação que vivi enquanto criança e que justificaria a emissão dessa nota que tem o dobro do valor de face da nota de maior valor que circula em nossa economia atualmente. Quanto à emissão da nova nota propriamente dita, neste cenário de pandemia de Covid-19, tenho a opinião de que esta medida vai na contramão do mundo.

“A maioria dos países está tirando as notas de alto valor de circulação na economia”

Por que você acha que estamos na contramão do mundo?

A maioria dos países está tirando as notas de alto valor de circulação na economia. Este procedimento tem o intuito de dificultar o processo de lavagem de dinheiro. Notas de alto valor e dinheiro vivo são frequentemente relacionados a tráfico de drogas, contrabando, operações ilícitas… A Europa tirou a nota do 500 Euros de circulação – e também é difícil ver uma nota de 200 Euros, por exemplo. O fenômeno não acontece somente em países ricos ou desenvolvidos: na Índia, país pobre, populoso e em desenvolvimento como o nosso, as notas de alto valor também foram tiradas de circulação. Em troca, há um processo que trabalha a Cidadania Financeira” da sociedade e a introdução de meios de pagamentos mais seguros.

O que significa Cidadania Financeira?

Trata-se de um projeto conjunto de diversos países ao redor do mundo, inclusive o Brasil, cada um em seu nível de profundidade e momentos distintos, mas que trocam entre si experiências e boas práticas. A cidadania financeira engloba não só educação financeira, mas inclusão, proteção e participação da população na bancarização. No Brasil, o projeto é trabalhado pelo Banco Central e surgiu da necessidade de proteger o indivíduo que lida com recursos financeiros.

Em um país em que jovens têm dificuldades em interpretar textos e fazer contas simples, educar financeiramente vem sendo um desafio, e assim, o projeto de cidadania nasce mais abrangente e com um olhar mais cuidadoso em relação às necessidades da sociedade.

“A agência bancária ainda é, para muitos, um ambiente hostil, arrogante, preconceituoso”

Houve críticas à decisão do governo de lançar a nova nota também baseadas no argumento de que as pessoas não usam mais dinheiro vivo. A crise do coronavírus, porém, mostrou que no Brasil ainda há muita gente fora do sistema bancário, os “desbancarizados”. De que maneira essa nova nota pode alterar positiva ou negativamente a realidade e a vida dessas pessoas – que ainda recebem em dinheiro vivo e pagam com dinheiro vivo?

Quarenta por cento da população brasileira ainda não é bancarizada, muitas ainda recebem seu pagamento em dinheiro e pagam suas contas da mesma forma. Outras até possuem conta corrente, que é diferente de ser bancarizado; ser bancarizado é entender como funcionam produtos e serviços dentro de uma instituição financeira, ter instrução suficiente para saber se uma solução financeira ofertada é ou não adequada para o seu momento de vida e diferenciar uma solução de uma venda goela abaixo. Os que possuem conta corrente e pouca educação financeira, assim que recebem o pagamento, sacam o dinheiro. A agência bancária ainda é, para muitos, um ambiente hostil, arrogante, preconceituoso… Muitos saem do banco com o dinheiro na mão e vão na lotérica mais próxima efetuar pagamentos. Estamos falando principalmente de pessoas que se encontram nas classes D e E, com baixos rendimentos e baixo nível de instrução que, provavelmente, não vão demandar tantas notas assim.

Ou seja: para essas pessoas, o conceito do dinheiro é apenas o prático: ganhar, comprar o que necessita e pagar contas. 

Para elas, é difícil lidar com o valor simbólico do dinheiro. Não é a primeira vez que toco nesse assunto, sou economista e planejadora financeira, trabalhei 20 anos em uma instituição financeira, e o que mais me chamou a atenção, em todos esses anos, foi o comportamento financeiro das pessoas. Sempre observei a relação das pessoas com o dinheiro, não o que compra bens e serviços, mas aquele simbólico, que promete comprar o “eu ideal”. Aquele que compra status, beleza, amigos, “amores verdadeiros” – e que garante aplacar através do consumo e, outras tantas vezes, através da ostentação, aquele vazio incômodo, inseparável da condição humana… Esse sopro de vida, de poder, que foi dado ao dinheiro, é a raiz de inúmeros conflitos. Questões que vão das compras por impulso à depressão, muitas vezes ainda associadas ao uso inadequado do crédito e endividamento.

“Ao se comprar com dinheiro físico, sente-se mais a “dor” do pagamento”

Numa entrevista recente à CNN, você comentou sobre pagamentos “touchless”, que incentivam a compra por impulso (“não sinto, compro mais”, nas suas próprias palavras): como o lançamento da nova nota de R$ 200 pode interferir no modo como as pessoas gastam e consomem?

Comprar com dinheiro físico é diferente de comprar com outros meios de pagamento. Ao se comprar com dinheiro físico, sente-se mais a “dor” do pagamento, vê-se o dinheiro indo embora… É diferente de quando se compra com cartão de crédito, ainda mais os que nem senha pedem mais e permitem o pagamento por simples aproximação: você sente apenas o prazer imediato do consumo – e não o dinheiro ir embora… Por isso o mercado estuda meios de pagamentos cada vez mais “touchless”, ou com pagamento antecipado, onde essa dor do pagamento acontece antes da experiência de compra. Quem fez isso muito bem foi o Uber. Que diferença foi sair daquela agonia de ver o taxímetro rodando e o valor da “corrida aumentando” e ir para o Uber, com aguinha e a balinha (no começo, né?), que te levava ao destino desejado e, ao chegar, não “quebrar o clima” com aquela coisa de procurar carteira dentro da bolsa, contar dinheiro, pagar, não ter troco… A sensação que dá é de que a corrida saiu de graça. Essa é a intenção dos meios de pagamentos “touchless”: se eu não sinto, compro mais. Comprar com dinheiro é olhar pro taxímetro rodando… Quando se compra com dinheiro, você é obrigado a contar as notas, contar o troco, você sai do piloto automático, que é chamado na economia comportamental de sistema 1, rápido impulsivo, emocional, e vai pro sistema dois, mais lento, reflexivo que te cutuca e te faz pensar se você vai mesmo gastar esse dinheiro. As pessoas seguram o dinheiro por mais tempo. E, quanto maior o valor da nota, maior o tempo de entesouramento.

“Se hoje já não tem troco para R$50 ou para R$100, imagina a cara do comerciante ao se deparar com o pobre Lobo Guará”

Lobo Guará, a estrela da nova nota de R$ 200
Lobo Guará, a estrela da nova nota de R$ 200 Foto: Shutterstock

Uma nota tão “grande” como essa pode acirrar a crise de troco que há algum tempo já se faz presente em várias cidades do Brasil?

Ah sim… e se hoje já não tem troco para R$50 ou para R$100, imagina a cara do comerciante ao se deparar com o pobre Lobo Guará –  que, cá entre nós, bem que podia ter sido o vira-lata Caramelo.

A escolha de animais em extinção para ilustrar as cédulas brasileiras é louvável, mas não conversa com grande parte da nossa população. Mas todo mundo conhece um vira-lata Caramelo. Abafamos uma oportunidade sensacional de fazer uma campanha linda de adoção, castração, conscientização sobre abandono e maus tratos contra animais na rua. Perdemos uma excelente chance de usar o dinheiro físico para ajudar a fazer do nosso país um lugar melhor para se viver.

“Essa nota de R$ 200 será como presente de vó: a gente ganha de aniversário e guarda”

Como você imagina que será o comportamento das pessoas diante de uma nota de R$ 200?

Essa nota de R$ 200 será como presente de vó: a gente ganha de aniversário e guarda! O vô e a vó já sabiam dessa tendência ao entesouramento das notas de maior valor: no envelopinho entregue discretamente no dia do aniversário, vinha uma nota só, porque se fosse dinheiro trocado, ah, esse voava…

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Jorge Tarquini

Curador do #Trendings.

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