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Diante do entusiasmo com que muitas empresas têm abraçado definitivamente o trabalho remoto, minha sugestão é: vamos pensar duas vezes…

Empresas devolvendo andares ou até mesmo prédios inteiros, enquanto adotam o trabalho remoto de modo permanente para boa parte de seus colaboradores. Analistas, especialistas e “curiosistas” em trabalho e relações humanas saúdam com entusiasmo o “novo normal”,  a “nova era do trabalho”. Há ganhos? Muitos. Mas para quem? E por quanto tempo?

Evitarei aqui focar na discussão já em andamento, sobre os conflitos de administração de tempo e de expectativas de produtividade – que, antes, eram claras e, hoje, não têm parâmetros claros. Meu ponto é outro – e foca o futuro.

Eu confesso: por mais que seja complicada a história do deslocamento para o trabalho, a história de comer fora todos os dias, a história de conviver mais com colegas do que com sua família, digo sem medo: essas coisas também inspiram e ensinam.

Impossível contar quantas vezes durante o trajeto para o trabalho, caminhando, pedalando, usando metrô ou meu carro, meus pensamentos viajavam junto e chegavam a ideias e soluções incríveis. Tudo o que eu via e experimentava nesse trajeto somava para o meu repertório.

A comida sem personalidade do dia a dia me fazia ter uma alta expectativa para saídas ou idas a restaurantes interessantes com família e amigos, almoços de domingo com as receitas da infância. E a companhia dos colegas mostra uma nova cor aos relacionamentos e ajuda a dar um tempo do continuum de assuntos e convívios domésticos.

Vamos supor que todo mundo esteja feliz com o trabalho remoto e que tudo esteja bem azeitado. Vamos nos transportar para daqui a três ou quatro anos. Um tempo bastante curto ao considerarmos a trajetória de um negócio, mas o suficiente para que muitas das pessoas que estão neles hoje não estejam em 2024 ou 2025.

A mais antiga e uma das maiores empresas de recrutamento do mundo, a Robert Half, realizou uma pesquisa que apontou crescimento de 82% no índice de turnover (ou rotatividade) nas empresas brasileiras – contra média de 38% no restante do mundo. Ou seja: a chance de haver muita gente que chegou no “novo normal” é bem representativo.

O ser humano é gregário. Ou seja: o esforço coletivo é a marca do triunfo da nossa espécie. Alguém aprender o que fazer e a executar com excelência o que deve fazer nos tempos do trabalho remoto desenterra algo que levamos muito tempo para abandonar: “fiz minha parte”.  Ou seja: estou na minha casa fazendo o meu e ponto. Até porque já tenho coisas demais para fazer…

Como construir cumplicidade apenas em reuniões por telas, telinhas e telonas? Ou por encontros até divertidos, semanais, quinzenais ou mensais, para manter o “espírito de equipe”? Você vai desenvolver intimidade profissional, cumplicidade ou afinidades com um colega com o qual nunca trabalhou ombro a ombro? Ou com quem nunca dividiu a pressão de problemas e da busca por suas soluções? Ou com quem não tem conversinha fiada no café? Que histórias têm em comum? A isso chamo de cumplicidade…

O quanto a falta dela pode, de certa forma e com quase 100% de certeza, jogar por terra o que as empresas estimam tanto: a cultura – que leva ao comprometimento com o todo (e não apenas com a “minha parte”).

Isso sem falar na comunicação informal que todo ambiente empresarial tem (em doses saudáveis ou não), a chamada rádio peão ou o corredor-press. Esses aspectos ajudam a todos na organização a medir a temperatura, o clima, a ficar alerta quando algo não está bem ou a se contagiar quando elas navegam com vento a favor.

Tenho minhas dúvidas de se a “revolução” do trabalho remoto e a economia com alugueis ou sedes compensam problemas mais do que antecipáveis – e que as empresas já haviam até resolvido em certa medida. Afinal, é bem provável que, em três ou quatro anos, consultorias que hoje aplaudem o home office e ajudam empresas a implantá-los poderão ser as mesmas que serão chamadas para consertar os estragos nas relações, no clima, na produtividade e na cultura dessas empresas.

Não sou refratário a mudanças. Mas esta, infelizmente, me parece uma volta à caverna de Platão, que ele descreveu em sua obra A República: voltaremos a acreditar apenas nas sombras que vemos projetadas nas nossas próprias cavernas, às quais estamos acorrentados. Talvez, em poucos anos, precisemos sair dela e encarar a luz do sol – que já tínhamos antes de tudo isso começar.

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Jorge Tarquini

Curador do #Trendings.

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