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Narrativas econômicas e a crise do Covid-19

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No contexto da atual crise de saúde, as decisões dos agentes em consumir, investir e poupar, que tornariam a recuperação da economia mais ou menos rápida, dependem das narrativas em circulação

*Alexandre Gaino

Não é novidade que nossas expectativas moldam as escolhas das pessoas e das organizações e que tais escolhas possuem profundas consequências econômicas. Sir Keynes já ressaltava que o ciclo econômico de um país é influenciado pelas decisões de consumo e investimento, as quais dependem das expectativas dos agentes.

Contudo, como podemos explicar a forma como as expectativas são formadas, quais fatores influenciam nossa visão de futuro? Robert J. Shiller, ganhador do Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel de 2013, propõe que analisemos o papel das narrativas.

Nesse contexto, a narrativa pode significar uma história simples ou uma explicação corriqueira de eventos. As narrativas expõem uma determinada maneira de interpretar as coisas. As pessoas adotam e criam narrativas em conversas cotidianas, posts em mídias sociais, ou ainda, em artigos, para expressar suas concepções, preocupações ou emoções. Buscamos, assim, estimular os outros a compartilharem dos mesmos juízos, ideias e sentimentos.

Segundo a professora Ana Maria Bianchi, “no domínio econômico e fora dele, o cérebro humano recorre a narrativas, que podem ou não ser “verdadeiras”, para justificar o comportamento do agente. Humanos são eternos contadores de histórias”.

Certamente, todos já ouvimos certas “verdades econômicas”, tais como: imóveis são investimentos seguros; empresas de tecnologia sempre prosperam; determinadas empresas são grandes demais para falir; o Estado é inerentemente ineficaz e deve gastar o mínimo possível; entre outras. Quer sejam ou não verdadeiras, essas crenças criam percepções e orientam ações que impactam na sociedade, na economia e em nossas vidas.

Assim, no contexto da atual crise de saúde, as decisões dos agentes em consumir, investir e poupar, que tornariam a recuperação da economia mais ou menos rápida, dependem das narrativas em circulação: sobre a disposição e possibilidade do Estado de combater uma segunda onda da Covid-19; sobre a capacidade governamental de vacinar a população; assim como, sobre a vontade política e o espaço fiscal para a execução de políticas de auxílio aos mais vulneráveis e apoio ao setor empresarial mais atingido.

O impacto de narrativas não factuais pode ser um pouco maior no mundo de hoje em relação ao de décadas passadas, isso porque as transformações tecnológicas e comportamentais têm permitido a rápida criação e proliferação de conteúdo por meio das redes sociais e das mídias digitais. Nesse contexto, o impacto econômico da crise sanitária, sua severidade e seu prolongamento, podem ser resultado da prevalência e visibilidade das histórias contadas, incluindo as “fakes news”, que se propagam de forma tão contagiosa quanto o próprio vírus.

*Professor da área de Economia, nos cursos de Publicidade e Propaganda, Sistema de Informação e Administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP). Economista, graduado pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Economia Política pela PUC-SP. Atualmente, é doutorando em Teoria Econômica pela Universidade de Campinas (Unicamp).

Atua em diferentes esferas no setor público e em consultorias nas áreas de Desenvolvimento Regional e Política Industrial. Linha de pesquisa e interesse nas áreas de economia regional e urbana e de políticas públicas de ciência, tecnologia e inovação.

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